Uma passagem curiosa dos suttas - 14/02/2026

Uma das passagens mais surpreendentes dos suttas ocorre no Sakkapañhā Sutta (DN 21). Nele, um músico celestial (gandhabba) chamado Pañcasikha se aproxima da caverna onde o Buddha residia e, ao som de seu alaúde amarelo, "canta versos exaltando o Buddha, o Dhamma, os Arahants e o amor". Os versos que ele canta são, na verdade, bastante picantes e quase todos dedicados ao desejo sensual que sente por sua amada. Certamente não é o tipo de coisa que você consideraria adequada para os ouvidos do Buddha. Suas referências budistas, quando aparecem, servem apenas para ilustrar seu amor:

‘Deliciosa como a brisa para quem transpira, e como uma bebida refrescante para quem tem sede; sua beleza radiante é para mim tão preciosa quanto o Dhamma é para os arahants."

"… Meu desejo era leve a princípio, oh! donzela de cabelos ondulados, mas cresceu rapidamente, como crescem as dádivas que os arahants recebem."

Poder-se-ia esperar que, ao final da canção, o Buddha lhe desse uma severa repreensão. Longe disso. Ele diz: “Pañcasikha, o som de suas cordas se harmoniza tão bem com sua canção, e sua canção com as cordas, que nenhuma prevalece excessivamente sobre a outra.” Minha contemplação dessa passagem ao longo dos anos me levou à conclusão de que o Buddha sabia que repreender um gandhabba por versos musicais sensuais seria como admoestar um gato por ronronar. Em vez disso, por compaixão, e inspirando-se em memórias de sua juventude no palácio, o Buddha graciosamente se voltou para os méritos musicais.

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